Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem quinda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Canção do Exílio, Gonçalves Dias, 1847.
Exilado em Portugal, Gonçalves Dias chora saudades de sua Pátria.
“Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico."
Essas célebres palavras foram proferidas por sua alteza D. Pedro I no não menos famoso “Dia do Fico”, no qual o Príncipe Regente negou o chamado do Estado Português, permanecendo no trono brasileiro ante o advento da Independência.
Obviamente, seu objetivo não era realmente compactuar com a independência da colônia, porém, as influências do Iluminismo e da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – já haviam atingido as camadas influentes da sociedade brasileira, burgueses e intelectuais, e as ideias de separação da Metrópole tornavam-se cada vez mais homogêneas entre a população.
Apesar de suas tentativas de manter o sistema mercantilista – Metrópole e Colônia – D. Pedro não pôde, afinal, conter as pressões internas – um povo descontente – e externas – a ambição inglesa sobre o mercado brasileiro -, proclamando, portanto, a Independência do Brasil.
E é a esse fato que devemos mais um feriado em nosso calendário. O dia 7 de setembro de 1822 é homenageado em nosso país como o Dia da Independência do Brasil, e nesta segunda-feira nós deveríamos, repito: deveríamos, comemorar nossa talvez nem tão gloriosa, mas com certeza preciosa Independência.
Mas eu não sei em que momento ou em que circunstância nós, brasileiros, nos esquecemos de valorizar os primores de nosso país. Esquecemo-nos de datas importantes, como a citada, e passamos em branco os momentos históricos como esse.
Reclamamos das atitudes de nossos governantes quando, na verdade, nem nós mesmos demonstramos o mínimo de respeito pela Pátria Mãe. Quem assiste os jornais ouve todos os dias sobre as pressões que o Brasil tem sofrido, tanto de poderosos mundiais quanto de países menos influentes, como a Venezuela, a Bolívia, o Paraguai. Nossas fronteiras têm sido ameaçadas todos os dias: a Bolívia deu um golpe na Petrobrás, o Paraguai se apoderou de parte da Itaipu, e os olhares ambiciosos sobre a Amazônia ameaçam a autonomia brasileira em relação a esse tesouro natural. É muita ingenuidade achar que tais incidentes são problemas que o governo há de solucionar com um amistoso jogo de futebol, o que é muito preocupante. Isso nos leva a uma pergunta incômoda: qual seria o brasileiro que se juntaria ao exército e com uma arma entraria numa possível luta pela Amazônia?
É triste ver que o nosso patriotismo só entra em vigor em época de Copa do mundo, não que você nunca tenha ouvido isso antes.
Deus nos deu de presente uma terra rica e esplendorosa. Não apenas na beleza, mas na riqueza, na produção, na capacidade de subsistir. Deu-nos uma terra rica em pessoas, em culturas, em ideias. Um povo generoso e simpático, uma fonte de talentos infindáveis.
Nosso privilégio de habitar uma terra quente e doce, de “formoso céu, risonho e límpido”, nos é também uma responsabilidade – responsabilidade de cuidar e zelar por esse paraíso divino.
O respeito, a reverência aos símbolos da nação – sua bandeira, seu brasão, seu hino, seu próprio nome – são a demonstração de nosso anseio pela pátria vindoura. Como esperamos amar e respeitar o reino que Deus há de nos dar quando desrespeitamos e negligenciamos o lar terreno que Ele mesmo proveu? Que tipo de sentimento você nutre em relação a essa pátria prometida? Se você não ama, verdadeiramente, seu próprio país, o que o prende então à esperança de um novo?
O exercício da cidadania nos prova como cristãos, ansiosos do advento; nos treina, nos prepara para receber a Nova Jerusalém.
“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião.
(...) Pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião. (...)
Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita.
Apegue-se-me a língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria.
Porque os teus servos amam até as pedras de Sião e se condoem do seu pó.”
Salmos 137: 1, 3, 5 e 6; 102:14.
Esses dois homens que choram as saudades de suas pátrias repreendem a nossa insipidez patriótica.
Que hoje, você pense sobre sua atitude em relação ao seu país. E talvez, quando em algum lugar, nem que ao longe, ouvir uma nota que seja do Hino da Pátria, seu coração se comova e seu olhar se submeta em respeito ao nosso símbolo terreno de Sião.
E que você seja fiel às palavras.
“VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA,
NEM TEME, QUEM TE ADORA, A PRÓPRIA MORTE.
TERRA ADORADA,
ENTRE OUTRAS MIL,
ÉS TU, BRASIL,
Ó PÁTRIA AMADA!
DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL,
PÁTRIA AMADA,
BRASIL!”